A última pétala
- Juliana Sena
- 19 de dez. de 2016
- 5 min de leitura
Atualizado: 3 de mar. de 2025
Vejo minha vida chegando ao fim no ano de 1964, quando fui definitivamente separada dos meus sonhos e do meu grande amor.
Os sinos repicavam enquanto meu vestido se arrastava pelo chão. Eu dava pequenos passos até o altar, sentindo os olhares de horror sobre mim. Meu traje negro e minha pele pálida causavam espanto. Um exagero, afinal, não há nada de anormal em minha aparência refletir meu estado de espírito. Subi ao altar. Cristovam tocou minhas mãos, e o padre iniciou a cerimônia.
Quando toda aquela tortura chegou ao fim, seguimos para o carro. O caminho de casa transcorreu em silêncio absoluto. Ao chegar, ele abriu a porta e, ao pisar no tapete, acendeu as luzes:
— Pode entrar, sinta-se à vontade. Sei que hoje não foi o dia mais feliz da sua vida, mas quero que saiba que não a tocarei até que me permita, Anna Bela — disse Cristovam, em tom respeitoso.
Baixei a cabeça e entrei no quarto que, a partir daquele dia, seria meu para toda a vida. Deitei-me e chorei até que as lágrimas se esgotassem. Meu coração sangrava, minha cabeça latejava, meus olhos ardiam e meu corpo clamava. Ao abrir os olhos, percebi a quietude da casa. Levantei-me e procurei por Cristovam, mas apenas encontrei uma carta sobre a mesa:
“Querida Anna Bela,
Não sei a que horas voltarei, precisei sair para resolver um assunto importante.
P.S.: Cristovam de Mourão.”
Como se eu não soubesse que o destino dos homens dessa cidade, após a meia-noite, fosse o Cabaré da Lilith. Deixei a carta de lado, tirei o vestido e tomei um banho, na esperança de lavar todas as impurezas que sentia em meu corpo. Vesti-me, li um livro e adormeci.
Fui desperta pelo som de vidro quebrando. Ao olhar para o chão, vi uma pedra envolta em um papel e estilhaços espalhados ao redor. Corri até a janela e, ao direcionar meus olhos para fora, deparei-me com a mais bela figura que já vira: meu grande amor. Como não reconhecer aqueles pequenos olhos verdes, sua boca avermelhada e sedutora, seu rosto rosado? Enquanto o admirava, ele se afastava:
— Não, não! Espere, Rubem! Não me deixe aqui... A pedra!
Peguei o bilhete preso à pedra:
"Encontre-me antes do amanhecer no mesmo lugar onde nos vimos pela primeira vez, à luz da chama de nossos corações.
Com amor, Rubem Casa Branca."
Meu coração acelerou tanto que até as estrelas poderiam ouvi-lo. Subitamente, um ruído me alertou. Temendo que fosse Cristovam, deitei-me rapidamente e escondi a carta sob o travesseiro. Quando percebi que meu marido adormecera, levantei-me com todo cuidado, vesti meus trajes e parti ao encontro de Rubem.
Ao chegar à cachoeira, não o encontrei. Olhei para todos os lados, tremendo de frio. Então, ouvi passos. Quando me virei, levei um susto:
— Meu amor, você me assustou! — respirei aliviada.
— Não diga mais nenhuma palavra, Bel.
Ele olhou profundamente em meus olhos e tocou meus lábios com os dedos delicados. Seus lábios, no entanto, não se contentaram em apenas olhar e preferiram sentir. Roçou-os em meu pescoço, desceu aos meus ombros e seguiu em direção aos meus seios. Com desejo, puxou as alças do meu vestido sob a luz do luar, que ressaltava ainda mais a palidez da minha pele. Retribuí com beijos molhados em seu peito. Quando desabotoei sua camisa e comecei a beijá-lo, ele me deitou na relva e percorreu meu corpo com carícias intensas. Beijou-me com devoção, enquanto minhas mãos arranhavam o chão em êxtase. Ele se deitou sobre mim, e minha respiração tornou-se descompassada.
Suspiramos juntos e nos deitamos lado a lado. Nossos olhares se encontraram, e nossos corações sussurraram:
— Eu te amo.
Ao perceber a hora, tive que voltar antes que Cristovam notasse minha ausência. Despedi-me de Rubem, entrei silenciosamente em casa e me deitei ao lado de meu marido.
Por um ano, nos encontramos toda semana no mesmo horário.
Certa noite, Rubem me surpreendeu com um convite para o Baile da Cidade e um vestido deslumbrante. Vesti-me com joias refinadas e fui alvo da inveja de todas as mulheres. Cristovam exibia-me orgulhoso. Sentada à mesa, observava o salão quando, para minha surpresa, Rubem surgiu. Meu coração disparou. Ele caminhou em minha direção e me convidou para dançar.
Sussurrei em seu ouvido:
— Você está louco?
— Preciso falar com você.
— Pode falar.
— Mas tem que ser no nosso lugar. Só saiba que eu te amo.
Sorri brevemente, mas antes que pudesse reagir, ele me rodopiou e ameaçou me beijar. Cristovam se aproximou e interrompeu:
— Posso ter a honra de dançar com a moça mais linda desta festa?
Rubem sorriu sarcasticamente, beijou minha mão e se afastou. Cristovam me tomou nos braços:
— Você está esplêndida, querida.
— Obrigada.
— Todos me invejam por tê-la como minha mulher.
— Não há motivos para isso.
— Posso tê-la por uma noite?
Envergonhada, aceitei. Ao chegarmos em casa, Cristovam beijou meus ombros, mas minha mente estava com Rubem. Parei suas mãos.
— Não consigo.
Ele se calou, pegou suas coisas e saiu.
Magoei-o, mas não poderia trair Rubem. Procurei Cristovam pela casa, mas ele havia desaparecido. Então, resolvi encontrar meu grande amor.
Naquela noite fria, a lua brilhava intensamente. Ao chegar ao nosso refúgio, encontrei apenas uma carta:
"Espero que me perdoe, mas preciso partir. Nunca a esquecerei.
Com amor, Rubem Casa Branca."
A carta escapou de minhas mãos, e eu me ajoelhei em prantos. Meu mundo desmoronou.
Mergulhei em uma profunda depressão. Cristovam cuidava de mim, mas nada me fazia sorrir. Minha mãe rezava, mas eu já não tinha forças para continuar. Enfraquecida, adoeci de um mal desconhecido. Os remédios tornaram-se minha única refeição. Queria morrer. Sem meu grande amor, a vida não fazia sentido.
Para minha surpresa, Cristovam nunca me abandonou. Chorava e rezava por mim a cada instante.
Certa manhã, entreguei-lhe uma carta que escrevi para Rubem. Ele a leu, e uma lágrima deslizou por seu belo rosto. Segurei suas mãos:
— Perdoe-me. Você foi a pessoa mais maravilhosa que conheci. Foi generoso ao aceitar viver comigo sem amor. Espero que um dia me perdoe.
— Eu te amei, Anna Bela.
Olhei profundamente em seus olhos e fiz meu último pedido: que escrevesse a Rubem sobre meu estado. Então, um sono profundo tomou conta de mim. Minha respiração falhou, e...
"Com muita tristeza, escrevo para anunciar a morte de nossa amada Anna Bela de Mourão, que partiu, consumida pela dor de sua perda, deixando-lhe uma rosa como lembrança.
Até o último suspiro, ela o amou.
Com pesar, Cristovam de Mourão."
Leia escutando: Trilha sonora: Casamento:https://www.youtube.com/watch?v=scgKP0rNTW0 ... Baile:https://www.youtube.com/watch?v=wM20fE_FVQw ... Encontro:https://www.youtube.com/results… ... Final:https://www.youtube.com/watch?v=lZH0MUSCsj0


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